Triste fim do Cine York

Bar Cine York

Não é saudosismo. Ainda que isso fosse perdoável, em se tratando de um cinema com a história do Cine York. Mas São José e, por extensão, Florianópolis perderam um dos raros refúgios do bom cinema nacional e estrangeiro. Após 10 anos de funcionamento, os proprietários anunciaram o fechamento da sala no final de setembro. Fato a lamentar.

Foi ali que poucos, como eu, puderam ter maior contato com as obras de Fellini e Bergman. Por mais felliniano que pareça, em tempos de recordes de bilheteria com Homem-Aranha e Shrek, o Cine York promoveu por volta de 2004 um festival somente com filmes do diretor italiano.

Somente um cinema com a personalidade do Cine York cometeria tal atrevimento diante de incontávei Blockbusters nos cinemas dos shopping centers. Sem falar na ausência das demais salas independentes, quase sagradas, que deram lugar a outro tipo de culto no centro da cidade.

Foi, de fato, uma luta inglória e desproporcional. Em menos de três anos, Florianópolis ganhou 15 salas de cinema para rodarem fitas dos grandes estúdios cinematográficos. São 21 contra 1. Na verdade, contra 2. O Cine York tinha como aliado o Centro Integrado de Cultura, o CIC, outro refúgio para os legítimos amantes da sétima arte. Não por acaso, o proprietário do cinema de São José, Gilberto Gerlach, também criou o Clube de Cinema Nossa Senhora do Desterro, no CIC.

Renascimento e queda
O Cine York foi criado em 1998, nos moldes do antigo cinema, de mesmo nome, que funcionava junto ao Teatro Adolpho Mello, na praça histórica, entre os anos de 1925 e 1932. (veja foto abaixo) Seguindo um caminho diferente do CIC, a sala josefense tentou misturar filmes autorais, os ditos cult, com as fitas do circuito comercial. Assim, obras como 8 ½, de Fellini, dividiram espaço com Titanic.

O filme do diretor James Cameron, por sinal, deve ter batido o recorde de permanência em cartaz no cinema. Foi pelo menos um ano de reprodução da obra no Cine York. E isso quando Titanic já havia esgotado as salas tradicionais dos shopping centers.

Esse foi, na verdade, um dos motivos para o fechamento do local. “É muito caro e difícil trazer os filmes pra cá enquanto eles são novidades. Muitas vezes, o filme está passando aqui, mas já pode ser alugado nas locadoras”, afirmou Adriana Gerlach, que trabalha no Cine York, ao site cotidiano.ufsc.br.

“Os Gerlach decidiram, então, que não valeria mais a pena manter a sala funcionando”, completou. “Os costumes mudaram. Tá todo mundo acomodado, ninguém quer mais sair pra nada”, concluiu o cinéfilo Osni Machado, historiador amador, que acompanhou de perto o ressurgimento e a queda do cinema. Seu Nini, como é conhecido nas redondezas, mantém registros históricos únicos da cidade.

Os costumes, ao que Osni se refere, são as opções culturais. Elas não param de minguar na cidade, incluindo a capital, é claro. Em tempos de crescimento desordenado e ondas de migrações de outros estados, Florianópolis perde uma fonte cultural legítima e diversa do “mais do mesmo” das demais salas de cinema. Ao contrário do prejuízo financeiro do Cine York, o saldo negativo para a cidade é imensurável.

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4 Respostas para “Triste fim do Cine York”

  1. Fabiana Silhen Disse:

    Com o fechamento deste reduto de oxigênio do espírito, infelizmente cada vez mais o placar vai ficando em R$ 10 para os últimos grandes sucessos da última semana e R$ 0 para a cultura que engrandece a alma…

  2. Fernanda Fava Disse:

    ai, realmente, também fiquei bem chateada com o fechamento do cine york.
    será que vão abrir uma igreja do reino de deus lá?
    beijos.

  3. André Vendrami Disse:

    Uma pena mesmo que se fechem esses tipos de salas, mas eu discordo de uma coisa, pra variar:
    “os legítimos amantes da sétima arte”
    não generalize! quem gosta de de filme cult não eh o expoente da representação dos “amantes de cinema”. Filme cult é cinema, Blockbusters também é cinema! Cinema é cinema, oras! Fica a dica!
    E agora, e tu esqueceu de falar do Cine Sol da Terra na Lagoa neh, ou já fechou tb? Lá passavam uns filmes interessantes tb!

  4. Guilherme Ferreira Disse:

    Lamentável… infelizmente, nossa mídia catatônica insiste (e consegue) empurrar goela abaixo o que mais vende, o que mais da lucro, passando com seu impiedoso rolo compressor por cima de poucos locais como o nosso querido Cine York, valioso patrimônio da comunidade josefense.

    Triste isso…

    Grande abraço Felipe!

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