Esporte não é um assunto recorrente neste blog. Mas vou abrir pelo menos uma exceção neste mês. (Talvez ocorram outras já que este jornalista está envolvido na cobertura esportiva há pouco mais de 30 dias). O nome da exceção é Rafael Nadal, o novo número 1 do tênis mundial.
Dotado de uma força mental impressionante, possivelmente sem comparação com nenhum outro atleta, de qualquer esporte, Nadal é um guerreiro das quadras. Não desiste de nenhuma jogada, mesmo que esteja com larga vantagem no placar. Suas disparadas no saibro já levaram os fãs a comparar: Nadal 4 x 4, em referência aos carros com tração reforçada.
Tal persistência também se revela na busca pelo topo do tênis, finalmente conquistado na semana passada. E não foi fácil. Se não bastassem as 156 semanas seguidas que o espanhol passou na segunda posição do ranking de entradas da ATP (a Associação dos Tenistas Profissionais), Nadal ainda vai ter que esperar até o dia 18 para ser oficializado no trono do esporte.
Annus mirabilis
2008 foi um ano que resume bem a perseverança deste jogador. Estável na segunda posição do ranking, atrás apenas do suíço Roger Federer, uma lenda vida do esporte, Nadal teve que defender sua colocação com unhas e dentes em dois confrontos diretos contra o número 3, o sérvio Novak Djokovic. Foram duas semifinais: no Masters Series de Hamburgo, na Alemanha, e em Roland Garros, na França.
O espanhol venceu as partidas, manteve a posição, chegou às finais, conquistou os títulos e ainda se aproximou de Federer. De ameaçado passou a ameaçar o reinado do tenista que bateu o recorde de semanas seguidas no topo: 235 semanas, ou quase 4 anos e meio.
Em Roland Garros, teve que enfrentar a pressão de ser tricampeão e favoritíssimo ao tetra. Pior. Como eraseguido de perto por Djokovic, o espanhol era obrigado a conquistar o título para defender os pontos obtidos no ano anterior. Se chegasse à final e perdesse, por exemplo, ele veria sua pontuação descer ladeira abaixo junto com sua posição. Mas Nadal não se intimidou. Eliminou Djokovic na semifinal, no confronto direto e derrotou Federer na final, com uma facilidade assustadora.
Feito o dever de casa, era hora de ir além. E ele foi. Na grama de Wimblendon, na Inglaterra, enfrentou o número 1 do mundo, pentacampeão do torneio, o mais tradicional do esporte, numa batalha épica de 4h48 minutos de duração, e levou a troféu para a Espanha, o que não acontecia desde 1966. De quebra, mostrou que não era um tenista que vencia apenas em quadras de saibro, consideradas mais lentas.
Foi o sexto título do ano. A terceira vitória sobre Federer, todas em finais, e mais os consideráveis 1 mil pontos por vencer Wimbledon. E ele virou número 1? Ainda não.
Perseverança
Seria preciso vencer o Masters Series de Toronto, no Canadá, e contar com o tropeço de Federer na competição, o que realmente aconteceu. O tenista alcançou os impressionantes 6 mil pontos no ranking, mas ainda não era suficiente para superar os 6.600 do suíço. Não é fácil bater uma lenda que já batera quase todos os recordes do tênis.
Somente chegando à semifinal do Masters Series de Cincinnati, nos EUA, e contando novamente com uma derrota do suíço no meio do caminho, seria possível finalmente desbancar Federer. Dito e feito.
E veio o número 1? Não. A vida de um atleta é dura. E Nadal, como se sabe, não desiste.
Por causa do sistema de pontuação da ATP (a Associação dos Tenistas Profissionais), a nova colocação, enfim no topo, só será computada no dia 18, depois dos Jogos Olímpicos de Pequim.
E Nadal ficou satisfeito? Depois de vencer sete títulos no ano, incluindo dois Grand Slams, o espanhol agora quer levar a medalha de ouro em Pequim. “É outro degrau em um longo processo. Trabalhei muito nos últimos quatro, cinco anos”, afirma. E, sem perder a humildade, o novo rei do tênis não poupa elogios à Federer. “O mundo precisa continuar a vê-lo como o tremendo campeão que ele é, e continua sendo”.
Em tempos olímpicos, sempre é bom lembrar como se faz e como age um verdadeiro campeão.
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