Mudanças de hábito

By Felipe Mendes
Bem lá no interior do Paraná, quase na divisa com Santa Catarina, 23 monges vivem para a oração, para o estudo e para o trabalho no Mosteiro Trapista – Nossa Senhora do Novo Mundo, localizado no pequeno município de Campo do Tenente, de 6.461 habitantes, a 90 km de Curitiba.

Os religiosos, de 18 a 88 anos, se dedicam a oração , praticada 7 vezes ao dia, plantam, colhem, assam pães caseiros e biscoitos e estudam, em uma biblioteca de 14 mil volumes, entre filosofia, teologia, sociologia e até literatura. Tudo dentro de uma rotina rígida, que começa às 2h45 da manhã, hora de levantar da cama, até às 19h30, quando vão dormir.

Caminho para a hospedaria dos visitantes

Caminho para a hospedaria dos visitantes

O Mosteiro é parecido com um grande sítio, mergulhado na natureza. Entre o portal na beira da estrada e a hospedaria são cerca de 2 km de distância, percorridos numa estradinha de chão, ladeada por árvores, extensas plantações e até um açude, habitado por poucos peixes.

A casa dos monges é separada da hospedaria por cerca de 200 metros de folhagens, passarinhos e, com sorte, até um esquilo, que de vez em quando dá as caras. Também há um muro de pouco mais de 1,80 de altura rodeando o ambiente privado dos religiosos.

Há pouco contato com os monges. Além das orações na capela, onde é possível ficar a poucos metros dos religiosos, o maior contato com visitantes ocorre durante o almoço, que é servido numa sala, ao lado do refeitório, na casa dos monges, do outro lado do muro.

Foi nesse ambiente que entrei em contato com duas boas histórias, que resumo abaixo:    

Do campo de guerra para Campo do Tenente
Irmão Francisco nasceu na Filadélfia, nos EUA, filho de pai americano e mãe alemã. Hoje com 88 anos, o monge participou da Segunda Guerra Mundial como co-piloto dos Aliados. Em um vôo sobre a Alemanha, o avião, com 5 tripulantes, foi atingido. O futuro monge pulou de pára-quedas da aeronave em chamas, junto com os companheiros de batalha.

Ao cair em território alemão, não imaginou que seu sobrenome alemão pioraria uma situação já crítica. Nas mãos dos soldados nazistas, o americano foi tachado de traidor, o que lhe rendeu mais sofrimento em comparação aos demais prisioneiros. Irmão Francisco não dá detalhes do que passou. Apenas lembra que sobreviveu.

Ao retornar para os EUA, renegou sua a vida que levava até então. Em uma tarde ensolarada, o americano saiu para passear de carro com sua namorada, como costumava fazer. Tirou a gravata. “Nunca mais vou usar isso”, disse à companheira. No meio do caminho, passou por uma ponte, onde costumava se encontrar com ela. “Essa é a última vez que passo por aqui”. Aos poucos, ele foi se desfazendo de sua antiga vida. “Aliás essa é a última vez que você está me vendo”, disse, sem rodeios, à namorada.

E voltou sua atenção para o volante, em direção ao Mosteiro Trapista de Massachusetts, estado ao norte dos EUA, onde foi ter uma nova vida.

Capela do Mosteiro

Capela do Mosteiro

O ex-combatente adotou o nome de Irmão Francisco. Hoje, com seus ralos cabelos brancos, é o mais velho dos monges do mosteiro de Campo do Tenente, onde mora há 20 anos. Foi um dos primeiros monges do local, vindo diretamente dos EUA. Até o ano passado, recebia, ainda com um forte sotaque inglês, os visitantes que ficam hospedados no mosteiro. Devido à idade avançada, o Irmão foi substituído no posto de monge-hospedeiro, mas ainda auxilia seu substituto quando pode.

E, pra quem duvida, ele mostra uma foto antiga, onde aparece em um avião, com o símbolo americano estampado, ao lado de outros soldados.

Inversão de papéis
Irmão José nasceu na Suíça, numa família abastada, “em berço de ouro”, como se costuma dizer. Sua família era dona da Bayer, aquela mesma da aspirina. Como boa parte de seus parentes, ele trabalhou na empresa farmacêutica. E progrediu. Em pouco tempo, alcançou o posto de diretor da empresa responsável pela América Latina.

Área reservada dos monges

Área reservada dos monges

Era o quinto homem mais rico do continente sul-americano e tinha, sob seu comando, 400 funcionários. Morava sozinho, em São Paulo, numa mansão de 19 cômodos na companhia de apenas um cachorro, à semelhança de Quincas Borba, o personagem literário de Machados de Assis.

Um dos executivos mais bem-sucedidos do país, aos 40 anos, com sua fortuna acumulada, poderia morar num hotel de 5 estrelas pelo resto da vida, sem mais trabalhar. O Suíço, no entanto, deu uma guinada radical em sua vida.

Largou tudo. Mansão, cachorro, família, nome e sobrenome. Doou seu dinheiro para parentes, instituições de caridade e amigos, novamente como fez o “filósofo” Quincas Borba. Sua residência, por exemplo, virou uma casa de repouso para mendigos, administrada por uma Ong. Viajou para Campo do Tenente e se juntou aos outros monges. E adotou o epíteto de Irmão José.

Sua mudança de vida ficou famosa. Até repórteres do Fantástico, da rede Globo, foram conhecer esse executivo milionário que resolveu abrir mão de conforto, luxo e até das modernidades mais prosaicas da vida, como TV, telefone e rádio, para viver uma vida simples, quase espartana no Mosteiro Trapista.

Ao chegar no local, o repórter fez a pergunta que não queria calar: Por quê? A resposta foi tão simples quanto desconcertante. “Já fui muito servido nessa vida. Agora é a minha vez de servir”, declarou.

E adentrou o mosteiro, onde passou a cumprir a rotina dos demais monges: cozinhar, lavar louça, limpar banheiros e participar de todas as 7 orações diárias, a começar pela primeira do dia, às 3 horas da manhã.

(Mais informações sobre o mosteiro em http://www.mosteirotrapista.org.br/)

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Uma resposta para “Mudanças de hábito”

  1. Fabiana Silhen Disse:

    Conheci o mosteiro e pretendo retornar. Lugar excelente para descanso do materialismo do dia-a-dia e para vermos que realmente daqui só levamos as experiências adquiridas e as amizades que confortam o espírito!

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