Nada mais promissor do que iniciar um blog com o estilo e a juventude dos Rolling Stones. São 46 anos de estrada com o frescor e a intensidade de um adolescente. É o que provam as diversas câmeras de Martin Scorsese, no show/documentário Shine a Light, que captou o espírito rock ‘n’ roll ainda ativo de Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood (Charlie Watts nem tanto, como era de se esperar).
Scorsese registrou um show dos Stones, no Beacon Theatre, em Nova
York, em novembro de 2006, para um público seleto, com direito até a participação de Bill Clinton, acompanhado de sua sogra. Nesse ambiente fechado, com as câmeras dispostas à sua maneira, o diretor tentou capturar, com um intimismo impressionante, o segredo da longevidade e do espírito da banda. Cada ruga de Keith Richards, cada movimento de Jagger, cada interação com o público e com os integrantes da banda de apoio geram uma catarse coletiva e irresistível. É impossível não entrar no clima, seja sentado na poltrona do cinema ou no sofá de casa.
O diretor captou até a sua própria angústia diante da “desorganização” dos Stones, que liberam a lista de músicas a poucos instantes do início do show. É impagável o contraste entre o nervosismo do autor de Touro Indomável e a despreocupação de Richards, que não sabe quais músicas irá tocar, e Jagger, que escolhe as faixas aleatoriamente, a minutos de entrar no palco. “Nem precisa ser na ordem”, implora Scorsese, claramente deslocado de seu hábitat natural, onde costuma controlar as rédeas.
As participações especiais, embora um pouco desnecessárias em se tratando de Rolling Stones, acabam dando um tempero a mais para a apresentação. De certa forma, a companhia de Jack White (Rock), Buddy Guy (Blues) e Cristina Aguilera (Pop) celebram os diferentes estilos musicais que compõe o som da banda. No caso de Cristina, se não foi a parte mais brilhante do show não se pode dizer que Jagger tenha reclamado do rebolado da garota.

União de Titãs
Não é a primeira vez que essas duas instituições estão juntas. Em seu aprofundado documentário The Blues – Uma Jornada Musical, de 2003, Scorsese mostra Mick Jagger e Keith Richards tocando ao lado do bluesman Muddy Waters. E em seu último e oscarizado filme, Os Infiltrados, o som da banda cobre as primeiras cenas do personagem de Jack Nicholson com a precisa Gimme Shelter. Fica a pergunta: seria Martin Scorsese os Rolling Stones do cinema, ou os Stones seriam o Scorsese da música?
Na nova empreitada dessa dupla de gigantes, há poucos traços de documentário. São raras e rápidas as inserções de entrevistas durante o show. Geralmente, são gravações antigas onde os Stones respondem as mesmas e repetitivas perguntas de diferentes emissoras. Não são à toa as respostas debochadas e os olhares inclinados dos músicos, mas sem perder a simpatia e o carisma.
É aí que se justifica a opção do diretor por gravar um show, ao invés de rechear um documentário com diversas entrevistas. Os Stones já responderam a todas as perguntas em 46 anos de turnês. Suas melhores respostas continuam sendo dadas no palco, como revela vividamente Scorsese. E dispensa declarações.
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