As idéias do candidato brasileiro ao Nobel

By Felipe Mendes

Nicolelis e o "terceiro braço" (Duke Magazine)Considerado o maior cientista brasileiro da atualidade, o neurocientista Miguel Nicolelis ficou famoso depois de fazer um macaco, em um laboratório nos EUA, mover um robô no Japão, usando apenas a “força do pensamento”. Tal conquista foi possível porque o cérebro do bichano identificou a estrutura mecânica, em Tóquio, como se fosse um terceiro braço, uma extensão de seu corpo. De acordo com Nicolelis, o encéfalo animal, e o humano também, assimila as ferramentas que usamos diariamente, como ocorre com os tenistas, por exemplo. Depois de anos de treinamento, o cérebro dos atletas identifica a raquete como um prolongamento do braço.

Nicolelis também ganhou reconhecimento por criar o Instituto Internacional de Neurociência de Natal, no Rio Grande do Norte, com o objetivo de promover a ciência numa das regiões mais desprezadas do Brasil e trazer de volta cientistas brasileiros que deixaram o país para fazer ciência lá fora.

O reconhecimento da atuação de Nicolelis foi acompanhado pela imprensa nacional em inúmeras entrevistas. Algumas abordaram o seu prestígio internacional. Outras, a contribuição social do Instituto de Natal e até sua paixão pelo Palmeiras.

Mas nenhuma se debruçou sobre as idéias desse cientista, candidato ao Prêmio Nobel. Na edição de maio, a Caros Amigos conversou com o pesquisador e tornou possível uma visão mais clara da contribuição de Nicolelis para a neurociência.

Abaixo seguem trechos da entrevista:

Nova visão do cérebro
“Todo mundo pensa o cérebro como um órgão que interpreta o mundo. Acredito que o cérebro cria o modelo do mundo, e só confirma ou nega esse modelo continuamente. (…) Minha teoria é que, ao longo do desenvolvimento, você vai mapeando a estatística de sua interação com o mundo. Essa estatística é incorporada no cérebro de tal maneira que cria um modelo de realidade.

Em um paciente esquizofrênico esse modelo de realidade sai de foco. Ele tem alucinações, pensa que o estão perseguindo, ouve sons. Mas o córtex auditivo está sendo ativado sem ter nenhum som. Está vindo de dentro dele.

Estou desenvolvendo essa teoria, explicando quais princípios regem a criação de um modelo interno do cérebro sobre o mundo. É como olhar o mundo do ponto de vista do cérebro.

Se você quer entender meu cérebro, você manda um sinal (visual, tátil, auditivo). Meu cérebro interpreta e você mede aqui de fora como é que reagiu. Mas esse é o ponto de vista de quem está aqui de fora – o que levou um monte de gente a pensar que o cérebro é só um decodificador de sinais. Foi a doutrina do sistema nervoso durante o século 20.

Quando a gente começou a olhar cérebros despertos de animais, e agora em cérebros humanos, descobrimos que o cérebro já está computando um monte de coisas antes mesmo de você mandar aquele sinal. Ele já criou uma expectativa do que você vai fazer, ou do que vai acontecer daqui a cem milissegundos, duzentos.

Na minha visão ele está só, basicamente, testando essa hipótese. Se é de acordo com o modelo, reage de maneira tranqüila. Senão, gera um sinal de alerta: “opa, tenho que atualizar o modelo”. O cérebro é um agente ativo, não é um decodificador passivo, um computador. É um criador da realidade, da sua realidade”.

Movimentos aos tetraplégicos
“A hipótese é: o cérebro do quadriplégico continua produzindo comandos motores, só que o sinal não consegue chegar aos músculos, porque houve uma interrupção das vias de comunicação. Demonstramos o princípio de que se pode criar um desvio. Pegar o sinal direto do cérebro, usar um chip para decodificar e mandar para um braço mecânico, que teria como finalidade reproduzir a intenção motora da pessoa – como o braço faria se pudesse se mexer.

Usamos uma prótese mecânica para demonstrar o conceito. Ao mesmo tempo descobrimos que, em vez de usar a prótese, podemos revestir o corpo com algo que a gente chama de exoesqueleto – um robô que se veste (com motores e sensores) – e fazer o cérebro controlar esse exoesqueleto. Você “carrega” esse corpo.

É como besouro, que é uma carapaça que se mexe com um corpo molenga dentro. É um corpo paralisado, carregado por esse exoesqueleto, que será controlado diretamente pelo cérebro. Permitiria que a pessoa retomasse os movimentos e forneceria uma terapia para as partes paralisadas (osso, massa muscular), porque você gera movimento e tenta reverter um pouco da atonia e da atrofia.

A longo prazo, se funcionar, o passo final é devolver esses sinais que vêm do cérebro para a maquinaria biológica sem o exoesqueleto. É difícil no momento. Inventamos uma prótese de locomoção onde o cérebro do macaco na Carolina do Norte comandou um robô no Japão em tempo real. O robô andou de acordo com o comando que veio do cérebro do macaco e mandou de volta os sinais das pernas andando”.

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